25/12/2014

Alacena: onde se guardam segredos dos sabores espanhóisRJ

Ligia Ghizi

Fui conhecer um novo restaurante em Botafogo - sim, mais um, no bairro gastronômico por excelência, a convite de uma amiga que sabe tudo sobre boas mesas. E vou contar um pouquinho da minha ótima impressão sobre o lugar.

Já gostei do nome escolhido, Alacena, que em espanhol significa armário que armazena alimentos, ou guarda utensílios de cozinha, mas aqui ficou bem apropriado, como se fora um trocadilho, convidando “a la cena”, ou algo como “vamos à janta”.

O restaurante inaugurado em novembro desse ano fica numa bela construção, na Rua Visconde de Caravelas, em substituição ao empreendimento anterior, Many, dos mesmos proprietários espanhóis, que convidaram o renomado chef Paco Morales (natural de Córdoba) para assumir a casa. Este veio para trabalhar com a tradicional culinária espanhola, suas receitas clássicas e tapas, mesclada à modernidade da cozinha contemporânea.

Preciso dizer que fiquei impressionada com o tamanho da edificação, de dois andares, ambientes amplos e distintos, que inclui um grande bar, espaço para eventos e grupos fechados e varanda. Com um décor de muito impacto visual, tem paredes de ladrilhos, piso geométrico, mobiliário retilíneo e objetos de adorno bem arrojados.

Agradou-me o estilo meio assim, como direi? Dramático, instigante e pictórico; um jeito meio Almodóvar de ser... Como essa parede, com letras luminosas, destacando os versos da canção La Bien Pagá, de Miguel Molina.

Nada te devo, nada te peço, estou te deixando. Esqueça-me”. Achei os versos bem impactantes, e fui à Internet pesquisar mais, e me encantei com o vídeo de um filme bem antigo.

A varanda é um espaço acolhedor e simpático, com velas acesas em todas as mesas, um mesão de apoio ao serviço e um canteiro com a mesma temática de losangos formados por luzes néon. Como estava uma noite agradável, minha amiga escolheu ficar nesse ambiente, onde aguardamos as demais comensais do grupo.

O Alacena é o primeiro restaurante fora da Espanha, comandado por Paco Morales, o jovem chef de 33 anos, com uma longa trajetória na cozinha, onde começou aos 14, tendo passado por estreladas casas, como Mugaritz, El Buli, até começar a trabalhar por conta própria em Valencia, e acabar ganhando uma estrela Michelin. Hoje comanda o Torralbenc em Menorca, o Al Trapo em Madri, e em 2015 deve inaugurar o Noor em Córdoba, sua cidade natal. Por isso ele já esteve três vezes no Rio, criando um belo cardápio, e deve voltar no início do próximo ano, para novas mudanças no menu.

Para poder coordenar o restaurante, montou e treinou uma equipe competente, de sua confiança, tendo Phillipe Meyer Rodriguez como sommelier, que harmonizou todos os vinhos com os pratos servidos, e o colombiano Fabian Bernal como sous chef, à frente da cozinha, que nos recebeu com muita simpatia, explicando tudo sobre o cardápio.

Inicialmente foi servido um coquetel muito leve e refrescante – mojito de morangos. Um detalhe curioso, os copos pra água são baixinhos, quase um pote... Confesso que o visual estava lindo, e aconchegante, mas me preocupou a luz indireta, para poder fotografar os pratos que viriam a seguir.

Primeiramente trouxeram o pão de tomate, cortado em pedaços grandes, mas extremamente saboroso, macio, e diria que levemente adocicado pelo sabor do tomate.

De entrada trouxeram salmorejo de tomates vermelhos com neve de queijo coalho, uma espessa sopa fria de tomates e pimentão, típica tapa da Andaluzia. E foi servida numa linda peça, toda em cerâmica negra brilhante, com tampa trabalhada. O sabor estava incrivelmente bom!

Eles têm um cardápio com opções à la carte, e o menu degustação, com pratos em cursos, que foi o que escolhemos. Confiamos na excelência do chef Morales e na execução do chef Fabian, de recriarem a “cultura ancestral das receitas espanholas, trabalhando com a modernidade, sem perder a essência”.

Os vinhos são todos espanhóis, sendo o primeiro - Artero Macabeo, um vinho branco frutado, com damasco, pera e flores. Seco com agradável e equilibrada acidez. Foi servido com o curso seguinte, berinjela frita com melado, purê de berinjela, tempurá e melado. Adorei isso!

Depois trouxeram torrada de pão preto com salada russa: pão de tinta de lulas, azeitonas, picles, alcaparras, atum com maionese ao limão. Esferas de azeitona verdes, que desmancham na boca. Diferente e delicioso! Ficou perfeito com o ótimo Viña Sol, branco com D.O. da Torres (Penedes) à base das castas parellada e chardonnay 2013.

Então veio o champignon ao alho, com caldo espumoso de bechamel e migas crocantes de pão. Confesso que apesar da descrição aparentemente simples do prato, me agradou bastante.

O vinho que acompanhou esse prato foi um delicado rosé – Miguel Torres De Casta Rosado 2012, da região da Catalunha, feito com uvas Garnacha e Cariñena (ou Carignan), perfeito para o paladar desse champignon.

Eu já estava bem impressionada até aqui, e mais ainda pelos vinhos servidos, que só realçaram ainda mais o sabor das receitas, principalmente esse último, de aroma agradável de cereja, com ótima acidez e identidade. E continuávamos apreciando o delicioso pão de tomates, reposto novamente, com um azeite muito bom, que vem em outro pote lindo, dessa vez em azul turquesa. Queria igual.

O quarto vinho foi um Abadal Picapoll 2012, feito com 100% da uva autóctone de Pla de Bages, na Catalunha. O aroma remete a pêssegos, manga, e lichia. Gostei imensamente e harmonizou bem com o prato: camarões al pil pil, camarões assados com pil pil de bacalhau, um molho típico do País Basco, à base de azeite, alho e salsinha. A foto ficou meio estranha, por causa da luz, mas o gosto estava excepcional!

O último prato me fez dar gritinhos de prazer (pra dentro, claro), pois era lombo de porco com cogumelos – champignon, shiitake, portobello, coulis e florzinha comestível. Estava maravilhoso!

Encerrando a degustação, um tinto - Abadal 3.9 Pla de Bages 2009. Esse vinho tem aroma intenso de frutas vermelhas, cassis e amoras. Delicioso!

Nós estávamos em grupo, e uma das meninas tinha restrição alimentar, então a ela foi servido um prato também muito interessante: atum a la cordobesa, com escabeche de verduras crocantes e mini cebolas, cenoura e milho.

A degustação estava completa, aí tomamos um cálice de Bailey’s, geladinho e muito saboroso.

Em seguida vieram as sobremesas, começando por leche frita, uma receita típica espanhola, que lembra o sabor de uma rabanada, só que muito mais leve, com sorvete de canela e esferas de melão. Sou suspeita, pois amo esse doce, que estava bem gostoso.

Depois serviram uma iguaria linda na apresentação: flor de arroz, com mousse de arroz com leite, e cobertura de morango, servida sobre um mix de cacau e amendoim. Eu adorei, pois lembra um arroz doce, e ao mesmo tempo um manjar, como nos tempos de minha infância...

E por último, crema andaluza, um creme tipo brûlée, com água de Azahar (a flor branca), conhecida como Água de Flor de Laranjeira. Simplesmente delicioso!

Foi um jantar muito bom, com atendimento e clima muito agradáveis, com uma harmonização de excelentes vinhos, cujas garrafas foram enfileiradas pelo gentil sommelier, para que eu fizesse o registro. A degustação tem um custo de 140 reais, e o das bebidas 80 reais. Mas o cardápio tem pratos com preços à la carte, assim como a carta de vinhos.

Fiquei encantada com essa nova casa, que passará a funcionar para almoços, a partir do mês de dezembro. Adorei, e por essa razão escrevi o post para compartilhar aqui, e voltarei muitas vezes. Recomendo!

Alacena
Rua Visconde de Caravelas, 22 – Botafogo
Rio de Janeiro/RJ
Fone: (21) 3596-1769
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