16/04/2013

O convés escondido do Floreria AtlanticoAR

Amanda Mormito

Lá nos primórdios da expansão marítima do século XV, os europeus realmente acreditavam em uma Terra quadrada. Sair, então, navegando pelo Atlântico era mais que um desafio, além de perigos reais, estava o desespero em saber que haviam monstros marinhos quando o mar, enfim, ''acabasse''. Ok que isso hoje pode parecer insano e perturbador, mas há algo instigante nisso tudo. Assim como há mistério no Floreria Atlantico.

Baseado nesse conto viking da Idade Moderna, o bar-restaurante mais comentado dos últimos meses de Buenos Aires saiu, diria eu, de uma história de algum lago nórdico. E ainda que tais embarcações tenham sido insalubres e que levavam seus marinheiros à loucura, o Floreria, é bem esnobe à primeira vista.

Com um ar um tanto quanto diferente na parte de cima, o lugar se passa por uma mera floricultura chique, de decoração inovadora, e um quê de ‘‘estou ouvindo jazz aqui dentro’’.

As rosas, juro isso e não é porque eu sou menina, convidam qualquer um a entrar por ali e se perder naquilo que eu poderia chamaria de loja de vinil com vinhos e ramos de flores. Se perdeu? Calma, eu mostro.

Floreria, na parte de cima, é uma loja de vinhos exclusivos (diga-se de passagem).

E ah, lindos também.  De marcas bem bonitas.

Assim como é, ao mesmo tempo, uma floricultura.

Do mesmo jeito que vende discos de vinil.

Ainda não entendeu o que tudo isso tem a ver com a balela que eu contei sobre mar e expansão marítima, não é? Ok, vamos para a parte de baixo, meu chamado: convés de caravela.

A impressão que eu tive quando entrei ali era: ok, se o dono não fosse conhecido, eu jurava que era um lugar proibido-fora-da-lei. Essa coisa de lugar escondido me chama atenção. Mas, além disso, o Floreria consegue te fazer viajar mesmo quando você desembarca no subsolo.

A decoração parece inacabada a propósito: o teto alude à infiltração, os monstros do mar - nas paredes - transmitem o medo que os nossos corajosos marinheiros tinham, assim como um ar úmido parece que pousa ali dentro só para te fazer sentir no fundo do mar.

Posso estar enganada, mas a ideia é, para mim, fantástica e originalíssima. Criar um ambiente totalmente fora do mundinho confortável lá de cima é, de certa maneira, surpreendente.

Eu até me arriscaria a dizer que não fossem as minhas vestes e minha câmera nova em mãos, eu estava a belos séculos atrás no instante em que pisei na casa.

Pois é, parece que tudo lá reina pelo mistério, pelo assombro, ou melhor, pelas sombras. Confere, produção?

A ideia do Floreria saiu de três cabeças gloriosas: Tato, um dos nomes mais conhecidos quando falamos de bartenders argentinos; Julian, de trajetória conhecida num dos bares de mais sucesso na capital, o 878; e Aline, orgulho de brasileira na frente do convés, digo bar, também. Na foto, o Tato Giovannoni encarna um monstro do mar: sim ou com certeza? Confesso que esperei o melhor ângulo para poder fotografa-lo com a astúcia que a casa sugere: botando medo no cliente. Brincadeiras à parte, grande time!

Ainda que tenha me levado certo tempo em entender completamente essa beleza de lugar, eu me resignei e comecei a pensar o que eu ia tomar. Foi quando vi que até nas paredes tinham sugestões escritas. Roots, curti.

Satisfeita com a minha expedição sem bússola, me sentei à barra (sempre o melhor lugar) e cativei a atenção da simpática sereia a minha frente.

Enquanto admirava o bartender local preparar drinks inspirados.

E um bar que tem como jefe de la barra, Tato Giovannoni, tinha que ter um senhor menu de drinks. A carta era tão variada que realmente ficou difícil escolher. Para cada país, uma seleção de drinks. E vale ressaltar que a escolha dos países foi feitas pelas imigrações que chegaram à Argentina. Logo é possível provar drinks italianos, espanhóis, franceses, ingleses e outras variedades. Mas o que mais me chamou atenção foi a última página do cardápio: tragos que não deveriam estar por ali. Amo essa sagacidade argentina.

O primeiro drink da noite era inglês, Scotch & Soda. Com Johnie Walker Red Label, chá Earl Grey e pêssego. Para tomar de bombilla com gosto de mate alcoólico. Amamos profundamente. E amamos ainda mais o ‘‘copo’’.

Minha escolha foi o nome mais sensual que achei no menú: Madame Ivonne. Preciso falar que era pura inspiração francesa? Com Henessy vs, Mandarine Napoleon com açúcar e Chandon Extra Brut. Eu poderia passar horas fotografando esse drink que não me cansaria. O turrão de açúcar soltou borbulhinhas até eu terminar de beber a taça inteira. Acho que foi uma das bebidas mais lindas e finas que já tomei na vida.

Para equilibrar um pouco fizemos uso da parilla superantiga que é quase patrimônio do bar/restô. A primeira entrada foi bem gaucha argentina: pães com cheirinho de orégano...

...e pedaços suculentos de ojo de bife com chimichurri. E ainda que um bar, geralmente, não tenha comida boa, assim como um restaurante não tenha drinks bons; o Floreria prova que consegue, sim, ter os dois numa dose só: muitas parillas porteñas perdem de menos dez na escala da carne mais jugosa e deliciosa da cidade. Sem exageros, ainda não sou argentina para dramatizar tudo.

E já que a ideia era se adentrar no mar, se você vai ao Altántico e não prova nenhum oriundo marítimo você, simplesmente, não foi ao Floreria. Entendeu? É como se fosse obrigação pedir ou a pesca do dia ou o polvo com batatas no limão em redução de azeitonas negras. É tão bom quanto parece ser na foto, juro para vocês. O pulpo parecia, e era mesmo, saído de um churrasco, incrivelmente bom.

E aí que para corar a noite eu pedi, óbvio, um trago especial pro bartender. Ele disse que ia preparar algo forte e eu disse: ‘‘dale’’. Logo veio, então, um dios-mío refuerte drink. Com gin, jerez fino e Martini. Bem seco que, segundo ele, casava com o polvo parillero que tínhamos pedido.

Se casava ou não, eu não sei, sou péssima em harmonizar bebidas e comidinhas (que vão além de tinto e carne ou sushi e branco). Mas que as azeitonas de brinde caíram bem, isso sem dúvidas.

Para coroar a noite o último trago foi de inspiração espanhola. Era o: Ginebra com tónica y algo más. Vinha lavado no Tanqueray, pomelo, baunilha e tônica. Sem erros, delicioso, parecia refri de tão leve que descia.

A parte difícil foi deixar essa viagem e voltar para a realidade lá de cima. E só porque eu achei o Floreria misterioso, parecia que tudo ali tinha um ar meio sinistro...

Ir para o fundo do mar e voltar no mesmo dia nos custaram 450 pesos argentinos. Os drinks variam entre 55 e 70 pesos, e as entradas vão de 40 a 100 pesos. Mas nada paga o desembarque da volta.

Floreria Atlántico
Arroyo 872 - Recoleta
Buenos Aires - Argentina
Fone: (11) 4313-6093
Somente dinheiro
www.floreriaatlantico.com.ar


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