25/05/2010

O Violento Mocotó do Naval, Desde 1907RS

Diogo Carvalho
Há mais ou menos 3 encarnações, época em que eu sentava na patente e nem conseguia ainda encostar os pés no chão (ficava balançando as perninhas e gritava "mãããe, deu!"), lembro de ouvir insistentemente da professora no coleginho que a gente só pode dizer que não gosta de alguma coisa, depois de prová-la.Mas eu, também insistentemente, vivia dizendo que sou super onívoro. Como absolutamente de tudo, tudo, tudo. Cachorro-quente de carrocinha, churrasquinho de gato, todos os frutos-do-mar (lula, enguia, arraia), todas as aves (desde passarinhada, até pomba), ovo colorido, pastel de rodoviária. Enfim. Menos Mocotó. E pior: por puro preconceito e por nunca ter tido coragem suficiente para provar.Aí tava ontem zanzando pelo centro com o meu amigo Guilherme Studart, o rei dos botecos cariocas, quando me foi proposto por ele dar uma checada no Violento Mocotó do Naval, servido exatamente com a mesma excelência desde 1907, e que inclusive sobreviveu bravamente à famosa enchente de 1941. Cara, num primeiro momento, por uma questão de educação, aceitei a provocação. Até porque nunca é demais voltar ao Naval e dar um alô pro mestre Paulo Naval, figura que já virou patrimônio histórico da cidade.Fui até lá tomando coragem, e pensando que, na pior das hipóteses, poderia dizer que estava mal da barriga e ficar somente no choppinho. Mas ao mesmo tempo, ficava me perguntando o porquê de não ter coragem pra encarar o Mocotó. Seria trauma de infância?Aí veio o choppinho. Mesmo partindo do pressuposto de que não existe chopp ruim quando servido num copo desses, preciso dizer que estava estupendo. Este foi o primeiro de uma trinca, que serviram de escudo para a minha reticência quanto ao Mocotó (ainda mais tratando-se do Violento Mocotó do Naval!).Ganhei mais tempo com a seguinte desculpa: "Guilherme, pô, não tem como a gente não comer uns bolinhos de bacalhau né? Tudo bem que o foco é o Mocotó, mas puxa... bora?". E é aí que a gente vê como o tiro pode sair pela culatra, porque o bolinho era não mais do que médio. Muita batata em pedaços generosos, e pouco bacalhau. Entretanto, até que tinha um formatinho uniforme, como manda o figurino.
Eis que não mais do que de repente, começamos a ouvir um diálogo super sincronizado. Num rompante, o seu Paulo encosta na mesa da dupla. Vemos ele cerrar suavemente os olhos, inclinar levemente a cabeça, e prestar a maior atenção do mundo no que os caras diziam. As palavras deles começaram a encaixar uma na outra, uma na outra, uma na outra... até formar uma poesia! O seu Paulo era o fiel da balança, aquele que dizia se era boa, ou não, enquanto rabiscava algumas coisas, sugerindo pequenos ajustes. Quando eu digo que tem boteco que é uma poesia, vocês não acreditam.Estranhopensar que o cara, além de dono de boteco, ainda tem o dom de moderar uma batalha de poetas de bar né? Estranho seria se esses olhos não tivessem visto Lupicínio Rodrigues escrever marchinhas de carnaval, músicas "dor-de-cotovelo", o hino do Grêmio e outros sambinhas melancólicos, ainda na época em que era apenas um anônimo e que sentava-se numa dessas mesas já marcadas pelo tempo, e pedia com voz melosa "uma cachacinha, um toquinho de lápis e uma folhinha de papel, por obséquio, meu camaradinha".Numa situação dessas, não existe Mocotó neste mundo que possa ser rejeitado. Comi. E comi faceiro da vida. Pedi pãozinho e tudo. Entre uma colherada generosa e outra, perguntei ingenuamente pro Guilherme: "cara, to adorando... mas isso daqui é Mocotó dos bons, ou existem melhores?", e ele respondeu que não era só bom, era "violento" de tão bom! Soltei um "ah tá, só pra saber, to amarradão mesmo", e segui firme até a última ponta.Devidamente "batizado" e agora orgulhoso em dizer que não há nada nesse mundo que eu não goste (fora, lógico, aquelas bizarrices chinesas como barata de Itu, olho de dinossauro e ovo de macaco albino), dei um passo pra trás e fiquei contente em ver que agora faço parte de uma legião de pessoas que passaram por aqui e que levam o Naval no coração.É o tipo do lugar que mereceria um livro que registrasse tudo o que se passou entre essas paredes centenárias, mas que não clamam por sossego jamais, e sim por mais histórias e poesias de bar pra contar. Se bem que acabei descobrindo a existência de um livro chamado "O Garçom e o Cliente - No Balcão do Naval", contendo poemas do próprio Paulo Naval (que na verdade chama-se Darcy, mas de tão identificado com o trabalho, trocou Darcy por Paulo e adotou o nome do botequim como sobrenome).Não sei se perdi muito o fio da meada. Porque comecei falando da minha capacidade de triturar tudo o que se atravessasse na minha frente sem maiores resistências, passando pelo desafio do Violento Mocotó do Naval com direito a poesia "ao vivo" recitada pelos centroavantes do time de boêmios da cidade, com um quê de Lupicínio Rodrigues em suas aventuras matinais ainda anônimo, quando era recepcionado pelo próprio Paulo Naval que lhe alcançava inúmeras vezes toquinhos de lápis e folhas em branco, sem nem mesmo saber o motivo. Desculpem, é que o Naval é pura poesia, e seria impossível traduzir essa experiência de 50 reais em um post somente. Fiquei confuso.

Bar Naval
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Mercado Público Central - Centro
Porto Alegre/RS
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