15/08/2012

Sorria, você está no Café de Flore!Free Pass

Diogo Carvalho

Tem dias em que a fome é inversamente proporcional à paciência de escolher exatamente o que queremos comer. Tipo, me dá logo aí o que tem, ao invés de me deixar perdendo tempo estudando cardápio pra complicar mais ainda as ideias enquanto deveria esclarece-las. Alguém aí se identificou com esse sentimento?

Foi num dia como esse que decidimos juntar café da manhã e almoço no Café de Flore, um dos lugares mais fortemente associados a Paris. Mas o excesso na associação não é tão grande a ponto de torná-lo um clichê-turístico, como é o caso de museus, torres, arcos e campos elíseos.

Dessa forma o Café de Flore tornou-se um clássico parisiense por todo o caráter cultural que carrega consigo, já que evoca um espírito francês rebelde, provocador, jovial, generoso e anticonformista. Graças a isso tudo, segue sendo praticamente uma embaixada esquerdista. Nada mais justo, na medida em que onde está localizado à Rive Gauche.

Vamos brincar de paradoxos? Gosto disso. Quer ver só: apesar de se manter moderno, preserva uma decoração bem antiga; pode-se ficar sossegado lendo um livro, sem descartar a garantia de encontrar uma porção de pessoas conhecidas; é mais utilizado como café, muito embora tenha a estrutura de um restaurante; absurdamente anticonvencional, mais é um grandessíssimo de um clássico.

Sou bom nisso, assim como também sou o mestre em achar sósias. O problema de brincar de sósias no Café de Flore é acabar achando o verdadeiro enquanto achamos que estamos diante do sósia. Tipo, o “olha lá o Spielberg!”, ou “haha, a Sofia Coppola!”, pode ser verdade, nesse caso.

Bueno, pra variar estava saindo gente pela janela, de tanta fila que tinha. Também, um domingo em Paris nunca é um domingo qualquer, ainda mais durante a primavera e com um lindo dia de sol.

O jeito foi ficar mesmo com uma mesinha no segundo andar. Não daria pra ficar observando o movimento do Boulevard Saint Germain, mas em compensação seria bem mais sossegado e saciaríamos o desespero da fome mais rapidamente.

Além do que, me pareceu ser o lugar mais parisiense do Café de Flore, porque é o ambiente mais discreto, da galera que não tá na pilha de ficar sentado trezentas e quatorze horas marcando ponto numa mesma mesa enquanto divide uma água mineral em busca de algum famoso que cruze pela sua frente. Pelo menos ninguém pediu meu autógrafo aqui no segundo andar, nem tirou foto minha.

Sempre é bom lembrar: era domingo, havíamos feito jus ao hábito de não tomar café da manhã e, portanto, juntaríamos o café com o almoço, e quem sabe até, com o café da tarde. Seria um brunch reforçado, porque não dizer.

A Re começou o dia com o Le Jockey, também conhecido mundialmente como Croque Madame. Melhor exercício do mundo: comer preservando a gema, e deixando-a por último como se fosse uma ilha. Daí começa a brincar de furar lentamente a semi-esfera e observar o amarelinho quente saindo aos pontos tipo uma mini-cachoeira. Masoquismo? Não, imagina!

Apesar do sol, a temperatura era bem baixa na rua. Aproveitei o ensejo pra começar com uma soupe à l’oignon gratinée, conhecida mundialmente como sopa de cebola com uma fina película de queijo gratinado e fatias de baguete à deriva.

Parei por aqui, lógico. Lógico QUE NÃO NÉ! Salta aí um ometelle mixte, com presunto e queijo, simpatia?! Ótimo. Parece tão fácil, mas nem isso eu consigo fazer em casa. Então tenho mais é que bater palmas mesmo.

Nesse meio tempo, a Re já inaugurava a etapa dos doces, ao sabor de um clássico da casa, o chocolat spécial de flore, um chocolate quente que eu tenho certeza ser o muso inspidador de todas as casas de chocolate de Gramado e Campos do Jordão.

Oi casas de chocolate do meu Brasil-sil-sil, é assim que vocês queriam fazer? Uhm, agora entendi, bom saber… Tim-tim então!

Já eu, quando vi um millefeuille de creme desembarcando pra tiazinha do meu lado que lia atentamente um livro mais grosso do que o Código Civil e com uns óculos minúsculos equilibrados com a ponta do nariz, tive certeza tratar-se de uma pedida infalível. Tava mais do que certa ela. E nós também.

Se eu tivesse que fazer uma crítica ao Café de Flore, nem seria referente aos 39 euros por pessoa que gastamos durante esse café-brunch-almoço-café, e sim ao serviço um pouco rude demais. Mas também, criticar serviço rude em Paris é redundante. Então só o que posso dizer é: sorria, você está no Café de Flore, então aproveite e seja feliz!

Café de Flore
172, Boulevard Saint Germain – 6 arrondissement
Paris – França
Fone: +33 (0) 1 45 48 55 26
www.cafedeflore.fr
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