04/06/2019

Tartare Restaurante: jantando com a chefia | Porto AlegreRS

Felipe Costinha

O QUE É: o Tartare é um restaurante de comida alemã clássico de Porto Alegre
IDEAL PARA: ir com a família ou com os amigos
PROVAMOS E RECOMENDAMOS: steak tartare (R$ 85); Colchão Alemão com molho da casa (R$ 115); bolinho de bacalhau (R$ 13,50); chopito (R$ 9,90)

Preste bastante atenção a esta história. É essencial que você chegue até o fim dela - não a abandone, assim como você não abandonaria um jantar no seu restaurante favorito.

Eu tava há 16 meses, desde que retornei a Porto Alegre, ouvindo falarem do Tartare semana sim, semana não. Não por acaso, já que eu trabalho nesta plataforma aqui, o Destemperados. E quem mais falava desse restaurante era um dos meus chefes, o Diogo.

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"É o meu restaurante favorito NO MUNDO."

"Cara, Colchão Alemão com molho da casa é o melhor prato, é um CANO."

"Vai lá e começa no chopito e no bolinho de bacalhau, depois deixa a vida te levar que tu vai achar o caminho."

Era esse tipo de coisa que eu ouvia, mas, por algum motivo, eu nunca conseguia ir. Às vezes porque tava no fim do mês e o dinheiro tava curto. Às vezes porque faltava companhia. Às vezes porque faltava dinheiro e companhia, coitado.

Fotos: Felipe Costa

Até que um dia, em uma caminhada pelo Auxiliadora, eu andava com as mãos nos bolsos, chutando uma fruta caída e indo para onde ela me levasse.

Levantei a cabeça e descobri que tava bem na frente dessa varanda estilosa. Não podia ser por acaso, tudo me levava àquele local e ao maior dos seus mistérios: MAS O QUE SERÁ UM COLCHÃO ALEMÃO, MEU DEUS?!

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Então, eu encarei bem a fachada e disse, com o dedo em riste, pra mim mesmo:

- Eu vou, nem que vá sozinho e que peça um empréstimo ao FMI!

No dia seguinte, peguei as dicas do "pedido ideal no Tartare" com o Diogo, chamei a gata das gatas, a mulher mais incrível que se poderia encontrar entre os trópicos, e coloquei o compromisso na agenda. Mas, mais uma vez, não aconteceu. Um novo compromisso me impediu.

Tinha algo de errado, algo não me deixava pisar no que o Diogo chamava de solo sagrado. E foi logo ele, o próprio Diogo, que me arranjou o outro compromisso bem no dia em que eu iria ao Tartare. Não era possível que até o principal entusiasta daquele local interrompesse minha escalada gastronômica rumo ao cume do monte Tartare.

Até que eu recebo a seguinte mensagem da chefia: "Costa, bora no Tartare amanhã."



Aproximadamente 24 horas depois, me curvei em agradecimento antes de entrar no Tartare Restaurate, da mesma forma que um lutador cumprimenta o tatame antes de entrar no local de batalha. Mas aquela luta eu já tinha vencido, eu consegui. Acredite nos seus sonhos você também, tudo é possível para quem não desiste!

Tudo bem, eu não tava com a gata das gatas, com a mulher mais incrível que se poderia encontrar entre os trópicos, mas ela compreendeu. Eu iria jantar com um dos meus chefes, então automaticamente aquilo havia se tornado um jantar de negócios. Certamente discutiríamos algo que poderia mudar o rumo da humanidade. Eu tava com muita moral!

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Mas eu me dei conta de que podia ser o contrário: "Será que eu receberei a pior das notícias em uma mesa de bar?", pensava, enquanto sorvia, quase em um único golão, um chopp extremamente gelado (R$ 9,90). 



Chegaram os bolinhos de bacalhau (R$ 13,50) e reverberou na minha cabeça a memória do"Vai lá e começa no chopito e no bolinho de bacalhau, depois deixa a vida te levar que tu vai achar o caminho."

Seria um recado para eu tomar meu caminho? Encontrar novos rumos?

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Degustei o bolinho e a mágica aconteceu, todos os problemas desapareceram durante aqueles segundos de glória e nenhuma possibilidade de derrota existia naquele momento.

O Diogo começou a divagar sobre a proporção ideal da batata e de bacalhau no bolinho. E só quando eu acabei de engolir o último pedaço que me dei conta de que aquilo era mais uma mensagem cifrada: precisa existir equilíbrio entre a batata e o bacalhau - como tudo na vida. Será que eu era a batata sobrando entre o bacalhau?



O Diogo jogava em casa: completamente confortável com os garçons, ele conhecia cada centímetro daquele restaurante que transformou em sua Meca pessoal.

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E foi justamente disso que falamos até a chegada do prato que dá nome à casa. Como os restaurantes bons de verdade te recebem de braços abertos e te fazem se sentir bem, sem dar aquela sensação incessante de "estou cometendo uma gafe".

Chegou o tartare (R$ 85), ou melhor, chegaram os tartares. Na verdade era um só, mas pedimos para dividir. Um era ao estilo alemão, e outro do jeito francês de fazer.



A carne é a mesma, a gema bem amarelinha também, o que muda entre os dois são os temperos. O francês leva mais condimentos, como a mostarda dijón. 

Concordei com o Diogo que a diferença é muito sutíl. Os dois são ótimos, mas se fosse escolher um, apenas, pediria o francês porque a mostarda dijón dá um toque.



A apresentação do tartare é um espetáculo à parte. Ele chega montadinho e o garçom mistura a carne crua, a gema e os outros ingredientes já na mesa.

O garçom é praticamente um chef, porque faz grande parte do trabalho. Depois de misturar, espalha a carne, faz riscas delicadas como se estivesse com um bisturi, e coloca as alcaparras, uma a uma, sem a menor pressa
O que nos atendeu disse que já faz isso há mais de oito anos.

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- Esse, sim, sabe das coisas! - disse o Diogo, no que eu classifiquei como um recado direto de que eu não sabia de nada.

Ele pediu uma mostarda forte para colocar sobre o tartare que colocamos sobre o pão fatiado. Interpretei como tentativa de assassinato porque era fortíssima. Quando você for lá, peça a mostarda, mas coloque apenas uma gota do tamanho da cabeça de um alfinete, não mais que isso.



Três rodadas de chopp depois, a hora derradeira. Depois daquele momento, nenhum assunto novo surgiria. Era agora que as notícias ruins deveriam ser dadas. Então o Diogo tomou um gole de chope, respirou fundo e finalmente falou:

- É agora, Costa! É agora, te prepara que lá vem a máquina! 

Pousaram na mesa uma porção da arroz e uma batata suíça do tamanho de um disco voador.  Eram os acompanhamentos do prato principal da noite, o famoso Colchão Alemão com molho da casa (R$ 115).



O Colchão Alemão chegou e eu descobri essa maravilha: um baita dum filezão à milanesa, recheado com presunto e queijo, com um molho da casa que eu não conseguiria descrever.

É óbvio que notícia ruim nenhuma chegaria, eu só usei isso para que você me acompanhasse por essa experiência gastronômica sensacional. E fico muito feliz por você ter lido tudo.

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Assim como o Diogo ficou feliz por eu ter ido com ele ao "seu restaurante favorito no mundo", como se estivesse me apresentando a uma pessoa muito querida. A conclusão que eu tirei foi que ele gosta tanto desse lugar que faz questão de levar os amigos que ainda não conhecem, já que lá eles vão se sentir como se estivessem numa extensão da casa dele.



E, no fim, não fui demitido, nem falamos sobre nada que pudesse mudar o rumo da humanidade.

Também não ganhei um aumento, mas pelo menos o Diogo pagou a conta.

Tartare Restaurante
Endereço: Av. Mariland, 696 - Bairro São João
Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 18h à 0h; sábados, das 12h às 15h e das 18h à 0h; domingos, das 12h às 15h
Formas de pagamento: aceita todos os cartões de crédito e débito
Reservas: não precisa fazer, mas chega cedo pra conseguir uma mesinha na varanda

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Se você gosta de comer e beber bem, e de falar sobre isso, vai gostar também do nosso podcast. O Foodcast é um papo descontraído da equipe de Destemperados sobre gastronomia, dá o play aí!

 

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